quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O STF e sua mensagem de desesperança

Mensagem: s.f. Recado ou notícia oral ou por escrito.
Aquilo que se executa por ordem ou a pedido de alguém.
Comunicação importante transmitida por alguém que é considerado como portador de uma revelação: o Evangelho é a mensagem de Cristo.
Significação profunda de uma obra literária ou artística.
Documento escrito que o presidente da República envia ao Congresso Nacional.

Confesso que fiquei surpreso ao procurar uma definição gramatical para mensagem e me deparar com o que li acima; imaginava um texto mais amplo, menos quadrado, condizente com os rumos que a palavra tomou durante seu curso histórico. A percepção humana vai muito além do escrito ou do dito, interpretar faz parte da nossa natureza. Seja emocionalmente, seja racionalmente, o homem ‘entende’ mensagens das maneiras mais diversas – e absurdas - possíveis.

A pessoa que não atende as ligações de outra não está pronunciando nem escrevendo palavras, mas está dizendo muito mais do que caso respondesse a chamada e pedisse ‘não me ligue mais’. Muitas vezes o ‘não’ da mulher quer dizer sim, e o ‘sim’, não; assim como o ‘sim’ do homem, quase que invariavelmente, significa ‘ok, você venceu...’. Sexismos à parte, passar uma mensagem vai muito além da tal definição teórica, trata-se na verdade de uma troca de informações passíveis de interpretações diferentes.


Pois bem, mudemos para Brasília, 18 de setembro de 2013. O Superior Tribunal Federal está prestes a acolher ou não os tais embargos infringentes - palavras horrorosas, que por si sós já nos fazem pensar em coisa ruim. Não, eu não sou advogado, muito menos magistrado, por favor, guarde seu discurso empolado no armário, junto com sua toga. Na vida real, a do cidadão comum, aquele que, assim como eu, nunca havia ouvido falar de embargos infringentes até outro dia, ninguém será venerado por pura e simplesmente defender a constitucionalidade de qualquer acinte, por institucionalizar aquilo que poderia ter sido usado como exemplo, o ponto de partida para uma moralização sem precedentes na curta história da nossa república. Aliás, a Constituição brasileira é um documento lindo, maravilhoso, deve ficar muito bonita na prateleira do Ministro Celso de Mello, tão bonita quanto o discurso impecável e milimétrico que ele preparou para defender seu voto.

Agora lhes pergunto: que mensagem o Senhor Ministro Celso de Mello e todos os outros ministros que votaram pelo novo julgamento dos mensaleiros passaram para o povo brasileiro? A de que a Constituição deve ser respeitada, ou a de que a impunidade impera nas altas cúpulas do poder? A de que os ministros seguiram a Constituição, ou a de que os mensaleiros não a respeitaram e se safaram, livres? A de que o STF representa o cidadão, ou a de que ele representa um grupo político que, cirurgicamente, implantou ministros caseiros para defendê-los descaradamente?

O STF não pode se dar ao luxo de passar uma mensagem imprecisa para a população pois é nesse momento que o garoto da favela, outrora indeciso, vê mais futuro no fuzil do que nos livros, que o cidadão do bem, benéfico à sociedade, perde a esperança, carimba o passaporte, e vai tentar a vida num lugar mais justo. O STF e o PT não precisaram escrever nem dizer isso com palavras, mas a mensagem que recebemos ontem foi essa, a de que ser desonesto no Brasil vale a pena. Que o país sobreviva.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Direitos humanos, errados humanos

Direitos humanos. Desculpa perfeita para uns e outros, travestidos de intelectuais donos da verdade, com aquele ar de superioridade que lhes é peculiar, saírem por aí nos tentando fazer engolir essa ideia de que todos merecem tratamento digno e igual.



Boston, 14/04/2013. Que direitos deve ter o sujeito que explode uma bomba no meio de uma centena de pessoas inocentes, algumas são mortas, outras mutiladas, tudo sob o pretexto de uma causa divina e uma pretensa salvação prometida por um deus que não é nosso? Por mim nenhuns. Hipocrisia imbecil e retrógrada essa de que os direitos têm que ser iguais para todo mundo. Eu não quero os mesmos direitos desse doente mental. Quero ter o direito de andar despreocupado por aí, livre do perigo de explodirem minha cabeça ou arrancarem minha canela fora. E não quero que ele tenha esse mesmo direito, não depois do que fez.

Nós, seres humanos, não somos todos iguais – e não estou falando de raça ou opção sexual. Para alguns não existe recuperação. Como avaliar o comportamento de um pedófilo se ele, enclausurado, está privado daquilo que dispara seu desvio? Os direitos humanos, por sua vez, consideram justo devolver o criminoso à sociedade, colocando em risco o bem estar de milhares em prol da improvável regeneração de um psicopata incurável. Será que esse mesmo ativista seria tão crédulo e parcimonioso se soubesse que o tal pedófilo reintroduzido mora a dois quarteirões da escola onde os filhos dele estudam? É o demagogo que repudia o serviço de inteligência americano que (alguém duvida?) vai apagar vários dos terroristas responsáveis pelo atentado de Boston durante a busca e captura, o mesmo que pediria a pena de morte aos capturados com vida caso fosse pai da criança de oito anos assassinada ou dos dois irmãos que perderam as pernas. Nada dói até que lhe doa.

Os direitos humanos têm origem em conceitos religiosos, da ideia de que os direitos são universais e naturais. A pergunta é: como convergir religião e justiça dos homens sendo tão diferentes as religiões, as justiças e os... homens? Uns matam por fé, outros perdoam por fé, uns condenam criminosos à morte, outros condenam inocentes à morte soltando criminosos. Na teoria lindo, na prática um desastre. Que um dia percebam isso, como podemos ser todos iguais perante Deus se cada um de nós tem um deus diferente?

Enquanto os ditos direitos humanos forem isso, uma utopia baseada em conceitos falidos e que serve mais pra proteger o que fere do que o que foi ferido, o mundo continuará presenciando essa escalada irracional de selvageria. É o contrassenso do bom que opera em favor do mal: os direitos humanos contra os humanos direitos.

Resumindo, sem purpurina, bandido não deve ter direito, não deve ter família, não deve ter pátria. Lugar de vagabundo é na cadeia, longe da sociedade que não soube respeitar.

terça-feira, 12 de março de 2013

As novas donas do pedaço

Durante décadas as mulheres cariocas, salvas exceções – sejam por terem maridos fiéis, ou, verdadeiras pioneiras visionárias, por não deixarem barato e rebaterem à altura -, foram vítimas passivas da malandragem masculina. Sim, pioneiras, as rebeldes eram o prenúncio dos novos tempos. Se antigamente ainda existiam muitos companheiros leais e poucas retrucantes, a realidade do século XXI é inversamente proporcional. A guerra se instaurou, e sabem qual é a maior diferença entre nós homens e elas? Nós não sabemos fazer, elas sabem.



O círculo vicioso tomou conta da sociedade solteira. Se antes o homem queria continuar sozinho porque assim era cômodo e bom, hoje em dia não quer namorar porque não existe mulher que preste. Ótima desculpa – às vezes até verdadeira, depende da sua sorte e percepção – mas é fato que ainda existem bem mais mulheres que valem à pena do que homens. No entanto, mesmo diante desse dado estatístico inquestionável, o surgimento de novas sub-espécies do gênero feminino se prolifera, e esses seres perigosos se espalham, incólumes e sorrateiros, pelas ruas do Rio de Janeiro. Algumas até usam a naturalidade diversa pra atacar as muitas vezes injustiçadas cariocas, mais um disfarce vil e mortal que, invariavelmente, nos engana num primeiro momento ingênuo de credulidade. Mas lembrem-se, portadores de testosterona, o jogo virou, todo cuidado agora é pouco, não importa a origem geográfico-social.

A grande pergunta é: como identificá-las? Difícil. Cientistas descobrem e cadastram novas espécies de lhamas, jacarés, gafanhotos e afins todos os dias; imaginem agora, como podemos registrar um novo tipo de mulher-beligerante se nem um cadastro de espécies conhecidas possuímos? Pois é, ciente disso, por minha própria conta e risco, baseado em experiências próprias e de terceiros e sem fins lucrativos, resolvi fazer minhas anotações. Cruzei – na maioria das vezes apenas no sentido de esbarrar – com algumas dessas espécies, e acho justo e pertinente agora divulgar esse conhecimento, mesmo parco e carente de embasamento teórico-científico, pra que vocês, raros homens de boa índole que, assim como eu, procuram uma boa mulher pra namorar e casar, não caiam nas armadilhas ardilosas dessas pseudo-vítimas. Leiam, estudem, anotem.

Pra começar, uma que me marcou bastante foi a mulher-bebê, extremamente complicada de reconhecer. Como o próprio nome ‘científico’ sugere, tem cara de cuti-cuti, parece frágil, chora por qualquer coisa, mas basta ter paciência, dar tempo ao tempo e sacudir um pouco que a merda sai. Uma bem traiçoeira é a mulher-denílson. Essa dá toda pinta de que quer jogo, engraçada, carismática, joga aberta pela ponta, se insinua, vai pra frente, bota o pé na bola, gira, vai pra trás, mas, na hora de fazer o gol e partir pro abraço, para a jogada, passa pro lado, vai pra sombra e fica esperando o próximo marcador. Outra que anda bastante em voga, principalmente nesse período pós-carnaval, é a mulher-caixa de banco, também conhecida como ‘bem que eu avisei’. Tá sempre de cara amarrada, reclama de tudo, mas passa o dia inteiro avisando pra quem quiser ouvir – e pra quem não quiser também - que a fila andou. Como esquecer também da mulher-catraca, aquela que roda na mão de todo mundo, é onipresente não importa aonde você vá, mas acaba sempre encontrando um passageiro de primeira viagem que acha que pagando a rodada vai chegar no ponto final. Chegar até chega, o problema é que, ao contrário da mulher-caixa de banco, que fala mais do que faz, essa espécie peçonhenta faz de tudo pra que sua fila, sempre comprida, ande na surdina. Mas a pior de todas, pelo menos a mais chata e pentelha, é, sem sobra de dúvida, a mulher-de-malandro-4G-100-mega-de-velocidade-ultra-plus-turbo. Que Deus nos proteja, essa mala sem alça reclama todo santo dia no Facebook que nenhum homem presta, fala pra mãe que os rapazes de hoje não querem compromisso, que homem de caráter é mais difícil que sinal da TIM, mas sempre que encontra um que a leva a sério vira mulher-híbrida, incorpora todas as anteriores, faz merda, enrola, realiza nas redes sociais, pega outro, e acaba jogando a oportunidade no ralo. Esses são alguns exemplos, mas, assim como lutadores modernos de MMA, essas mulheres estão cada dia mais versáteis, tanto na luta em pé quanto na de solo. Se não te acertam com um direto no queixo te botam pro chão e levam seu braço pra casa. Conhecem outras espécies? Compartilhem!

Enquanto isso, você, homem assim como eu, não adianta reclamar nem espernear, é o momento delas, a hora da vingança, de usufruírem o poder que sempre tiveram, mas que nunca souberam usar, de ligarem pra best contando do estrago que fizeram na noite anterior, e depois fazerem charminho no whatsapp com aquele fofo que elas acham que tem potencial pra virar namorado no dia que elas acharem por bem. Simples e descomplicado, repito, o jogo virou. Mas, guerra vigente, o que fazer? Aceito sugestões, mas em todo caso fiquem com uma das duas opções conhecidas: rezem pra ela ser uma daquelas que ainda valem a pena e paguem pra ver, acreditem, nem tudo está perdido, ou, simplesmente... Sejam piores ainda, afinal nisso somos mestres! Mas lembrem-se, se a escolha for essa levantem bem a guarda, nosso oponente agora atira pra matar.





terça-feira, 21 de agosto de 2012

Política, odiosa política

Eu odeio política. Odeio a cara de pau de uns e outros que, generalizando, são iguais entre si e que parecem brigar a campanha inteira apenas pra provar aos eleitores que o adversário tem um histórico de desserviços prestados à sociedade mais extenso e cabeludo. Dissecam a vida pregressa um do outro, se falam mal, um é o capeta, o outro é satanás, e anos depois aparecem apertando as mãos, aliados, juras de amor eterno, elogios mútuos, praticamente dois santos temperantes.

O enredo não muda, a oposição quer o poder, e pra isso deixa claro que tudo que a situação faz é errado. A situação mostra ou que a oposição está despreparada pra ser situação ou que, quando o foi e se já o foi, só fez errado. Quando a situação vira oposição fala que a agora situação faz tudo errado, e a agora situação faz tudo que a nova oposição fazia quando era situação, igualzinho, tudo errado. Parece confuso mas é simples: todo mundo faz tudo errado.

Pra que votar então? Boa pergunta. Eu, como odeio política, voto nulo, sempre. Aliás, enquanto o voto for obrigatório votarei nulo, invariavelmente. Morei três anos na Nova Zelândia e só sabia que havia eleição naquele dia porque uma ou outra das várias pessoas que conhecia resolvia votar - ou então era a única que manifestava que iria. Lá o voto é facultativo, não existe propaganda eleitoral, vida pública e histórico político do candidato estão disponíveis na internet pra quem quiser conferir, não se vê um panfleto na rua, outdoor, carro de som, nada, absolutamente nada. Você vota baseado no que o sujeito ou a sujeita fez, preto no branco, e na proposta do partido. Sim, lá, como em todo país que leva política a sério, os partidos têm propostas, as seguem, e você vota sabendo exatamente o que esperar. Aqui somos obrigados a conviver com essa poluição sonora, visual e física que faz a cidade parecer um macacão de piloto de F1 gigante, e sabendo que as propostas dos candidatos serão todas jogadas no lixo mediante alegações de impossibilidade disso e daquilo, falta de apoio da base, orçamento limitado, oposição vilanesca e mais um monte de desculpas passadas. É óbvio que existem pessoas bem intencionadas, honestas, com propostas sólidas e boa vontade, mas de que adianta colocar um camarão num prato cheio de baratas?

O que fazer? Sinceramente não sei. Minhas soluções são radicais demais pra serem discutidas, prefiro me abster, mas não chegaria ao ponto de fuzilar o corrupto como fazem na China ou de cortar fora a mão do ladrão, como fazem no mundo árabe. Aliás, se perdendo a ponta do mindinho uns e outros se aposentam por invalidez, fundam um pretenso partido dos trabalhadores, viram presidente, se refestelam na miséria alheia à base de maquiagem política, viram ícone e ganham memória seletiva, imagina se cortam a mão inteira!

Infelizmente o brasileiro, afogado na própria ignorância, se acostumou com a merda. Ao invés de olhar pro mau exemplo e fazer o oposto prefere usá-lo como desculpa pra justificar os próprios erros. Por que jogar o papel e a guimba de cigarro na lixeira, respeitar as leis do trânsito e declarar o IR corretamente se os caras que detém o poder e deveriam dar o bom exemplo fazem essa porcalhada toda que vemos na TV? Discordo, mas os entendo, a culpa por pensarem assim não é deles.

Tenho amigos que gostam, participam, se envolvem, mas não os recrimino. Alguns vêm de famílias políticas, alguns dentro dos alguns fazem parte do raríssimo grupo das exceções, gente realmente do bem (os tais camarões), outros irão se beneficiar de alguma forma, e uma minoria realmente gosta da coisa. Os primeiros apoio veladamente, os segundos torço pra que consigam, afinal, se é uma barata que vai ganhar que pelo menos algum amigo mame nas tetas dela, e os terceiros... Bem, os terceiros espero que arrumem coisa melhor pra fazer, tipo jogar polo aquático com ursos polares ou fazer bungee jumping com fio dental estragado.

Agora chega, pra quem odeia política já falei demais. Não sou cego, nem na ignorância nem na ilusão de que sozinho vou mudar alguma coisa. E quer saber? Que essas eleições passem logo, sem segundo turno, ninguém merece meia hora de Carminhas falsas antes da original.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O Brasil é verde, e amarela...

Acabou mais uma edição dos Jogos Olímpicos, e pela enésima vez desde que me entendo por gente o desempenho do Brasil é mais uma vez classificado pela maioria como vexatório, mico, decepcionante, catastrófico e outros adjetivos menos otimistas. Tudo bem que abrir o quadro de medalhas e perceber que ficamos atrás do Irã, que salvo engano só tem anões lutadores e pigmeus levantadores de peso na delegação, da Nova Zelândia, cuja população de ovelhas é quatro vezes maior que a de gente, e do Cazaquistão, país conhecido mundialmente por não ter nada conhecido, é meio humilhante, mas, em termos de números, vá lá, não foi essa desgraça toda. O problema é atitude.

Antes de tudo, não somos uma potência olímpica. Se quisermos um dia figurar entre os dez de cima temos que aprender uma coisa básica: a medalha de ouro do peso-galo da luta greco-romana ou do arremesso de martelo tem exatamente o mesmo peso da do futebol ou do vôlei. A Jamaica se esbalda com seus velocistas, Coréia do Norte, Irã e Cazaquistão com seus levantadores de peso, Hungria com sua canoagem e a gente pagando de versátil, mas, na verdade, totalmente sem foco.

Outro fator preponderante é essa fama de amarelão que o atleta brasileiro desenvolveu através dos jogos. Sempre que ele ou ela são favoritos, na hora do pega pra capar, da jurupoca piar, da onça beber água, o caldo entorna. É um tal de vento atrapalhando, dor no pé, cair de bunda, dia ruim... Passam os 4 anos do ciclo olímpico ganhando e quando o negócio vale ouro, chiam. A Fabiana Murer, por exemplo. Uma vez perde a vara, na outra não salta por causa do vento. Se colocarem essa menina num quarto com ventilador de teto ela faz o que? Chama a mãe e chora? Menos mal que não é o Diego Hypólito que salta com a vara, com essa mania dele de aterrissar de costas ia acabar virando uma maçã do amor, se é que você me entende. A verdade é que, no geral, o atleta olímpico brasileiro tem o equilíbrio emocional de uma ameba acéfala e a consistência de um pudim de leite. E fale o que quiser dos americanos, mas eles são educados desde pequenos a entrar pra ganhar até em totó e dominó, enquanto o brasileirinho acha legal ficar em 5º. Se não tem estrutura é exemplo de superação, se é favorito arruma desculpa.

Tem também aquela parcela da torcida que adora passar a mão na cabeça, os chamam de coitadinhos, falam coisas do tipo ‘só nós sabemos o que eles passaram para chegar lá’ e afins, como se o sueco que ganhou o ouro tivesse recebido um implante de chip estilo Matrix e se transformado no melhor do mundo por milagre, sem esforço, sem sofrimento, sem mérito. Todo atleta sofre pressão, e o cara que sobe no degrau mais alto é aquele que une capacidade técnica, física e habilidade pra lidar com ela, a pressão. Isso é puro reflexo da educação da gente, que, ao contrário de americanos, europeus e asiáticos, não aprendemos a lutar pra chegar ao topo, e sim a tentar sempre arrumar um jeito de se dar bem. E quando lutamos, quase que invariavelmente, lutamos do jeito errado, sem a inteligência e o equilíbrio que os gringos têm. Sempre existe uma história de superação por trás de um vencedor, seja ele da nação mais rica do mundo ou do buraco mais fedido. O brasileiro que tem esse pensamento precisa urgentemente aprender a diferenciar o vencedor do campeão. O vencedor é aquele que vence as dificuldades. O campeão é aquele que vence todos os outros vencedores.

Espero que nesses quatro anos que temos pela frente os atletas brasileiros aprendam com as derrotas, porque elas valem muito mais do que as pequenas vitórias quando o objetivo é grandioso. Quem precisa de participante é abaixo-assinado, já tá mais do que na hora do Brasil deixar pra trás esse discurso patético de perdedor honroso, de coitadinho, esse complexo de vira-latas que faz a gente se conformar com tão pouco. Cabeça erguida, sem nunca se contentar só de estar ali. Se perderem que percam com os bagos inchados, que nem o vôlei masculino e o Esquiva, sem amarelar nem dar desculpas.

E por fim, pelo amor de Deus, COB... Cuidado com quem vão convidar ou usar pra representar o país nas cerimônias de abertura e encerramento! Num país de Villa-Lobos, Pixinguinha, Luiz Gonzaga, Tom Jobim, Gilberto Gil, Zé Ramalho, Marisa Monte, Lenine, Herbert Vianna e tanta gente boa não me venham com Ivete, Chimbinha, Claudia Leitte, Latino e Michel Teló! Já nos bastam os clichês da bateria de escola de samba e da mulata gostosa...

Que venham os Jogos, e que em 2016 a frase ‘brasileiro derruba gringo e leva ouro’ seja mais lida no caderno de esportes do que em BO de delegacia.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

A poupança Bamerindus

‘O tempo passa, o tempo voa, e a poupança Bamerindus continua numa boa...’. Quem viveu os anos 1990 lembra bem dessa musiquinha pegajosa que era veiculada pelo banco até sua extinção, lá pelos idos de 1997. Pois é, o tempo passou, o tempo voou, e a poupança Bamerindus não está mais numa boa. Isso serve como exemplo de que nada na vida é eterno, muito menos o jackpot mais perseguido de - e por - todos, a tal felicidade.

Ser feliz, pra mim, é acordar descansado, tomar um banho quente e um bom café da manhã, ir trabalhar sem pegar trânsito, almoçar com pessoas que te abduzem do stress do escritório, ter um dia de trabalho produtivo, voltar pra casa sem pegar trânsito, malhar (tênis, academia, natação, corrida... tanto faz), outro banho quente, um jantar leve, estudar um pouco (ou muito, se for semana de prova), esporte na TV, ar-condicionado ligado e, last but not least, uma boa noite de sono, pra começar tudo de novo amanhã. Se for final de semana melhor ainda, acordar tarde, pegar uma praia com os amigos, almoçar sem hora, soneca, pré-night, se for o caso, e o resto é história. Viajar sempre é bom também. Tudo muda um pouco se você está com alguém, mas a essência é a mesma, a busca pelo equilíbrio.

Esse exemplo foi meu, é o que EU gosto, o que eu considero prazeroso e satisfatório. Tem gente que curte vagabundear o dia todo, outros adoram passar o fim de semana entornando todas, alguns até acham legal perder o domingo vendo o Faustão ou fazendo rapel, cada um na sua. Meu ponto aqui é: ninguém vive a felicidade 24/7, 365 dias por ano. O que descrevi não é felicidade, é equilíbrio, emocional e físico. E aí me perguntam, felicidade existe? Claro! Mas é efêmera, temporal, passageira. O máximo que podemos fazer é potencializar a frequência com que essas ondas de felicidade nos visitam. Como? Seguindo o roteiro que descrevi acima (isso no meu caso), lidando de maneira racional e inteligente com os percalços, se afastando de quem te faz mal e se aproximando de quem quer seu bem, sendo educado e prestativo com quem merece (e educado e distante com quem não merece), e, acima de tudo, respeitando as diferenças e os sentimentos de todos.

Quem me vê falando assim pode pensar que sou o Jedi do autocontrole, o Pelé do zen-budismo, o Peter Perfeito mutante com o poder do sambarilove onipresente, mas quem me conhece sabe, eu tento, mas vez ou outra dá merda, e quando a jurupoca pia o Ed equilibrado precisa de tempo pra voltar aos trilhos. É assim com todo mundo, cada um tem seu tempo, suas convicções e sua própria realidade. Realidade, aliás, é a coisa mais subjetiva do universo, cada um tem uma visão diferente de um fato, mas felicidade qualquer um reconhece, do monge mais puro até o bandido mais vil, essa é igual pra todos, só muda o gatilho.

Admito que hoje sou um homem equilibrado, tenho momentos de felicidade todos os dias: um nascer do sol diferente a cada vez que atravesso a ponte indo pro trabalho, o quindim molhado de sobremesa, a piada engraçada que vem no tempo certo, a mensagem legal no whatsapp, o post ou a foto maneira do amigo no Facebook, o conselho cheio de boas intenções do amigo ou da amiga, o colo da família, o carinho de quem você gosta... Óbvio que a porra do motoqueiro que passa buzinando no meu ouvido quando o trânsito tá parado, os juros do banco ou o acéfalo que maltrata um animal ou joga lixo no chão me tiram do sério, mas e daí? Já vivi o suficiente pra saber que a felicidade é algo intermitente, e que seria a contínua tão inalcançável pra todos como é a Katherine Heigl pra mim.

Mas será que um dia, depois de anos de união feliz (no geral!) com a Katherine Heigl, eu acordaria uma manhã, abriria os olhos, olharia pra ela e pensaria em outra? Provavelmente sim, mas a vida me ensinou que isso passa, e que se hoje eu dormir mal e acordar cansado, tomar um banho frio porque a bateria do aquecedor acabou, não tiver pão pro café, tiver que almoçar com o pela-saco mais chato do escritório, brigar com o chefe, pegar um engarrafamento interminável na ponte, não puder jogar tênis porque choveu o dia todo e etc., amanhã a Kathy (sim, já somos íntimos) volta a ser a mulher mais linda do mundo.


Tudo na vida passa, até a poupança Bamerindus. O que vale a pena volta, o que não vale fica pra trás. E assim a gente é mais feliz, pelo menos com mais frequência.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

A dúvida que move a humanidade, de verdade


Lembro de assistir uma dessas comédias românticas, bem inofensivas, cheia de clichês pegajosos, e ouvir o personagem principal masculino, atormentado pela ex-namorada paranoica, recém-promovido à solteirice convicta dizer ‘pra que largar meu 7 seguro de todo dia por um 10 hipotético que invariavelmente vai virar um zero a esquerda?’. Boa pergunta essa. A calmaria do velejar solitário ou a montanha-russa do relacionamento a dois? O que é melhor, se contentar com a felicidade simplória e espartana que é manter-se de coração fechado ou comprar o bilhete na esperança de encontrar o suprassumo da felicidade em dupla, correndo o risco de encarar o mais que provável ‘giving with the donkeys in the water’, numa tradução literal para o nosso português, ‘dando com os burros n’água’? Digo provável porque, aceitem os românticos ou não, 95% dos relacionamentos estão fadados ao fracasso.

A pergunta é complexa em sua essência, a começar pelo fato de que muitas pessoas associam o ser feliz a estar com alguém. Pra gente assim a vida parece simples - se tiver feito uma tatuagem com o nome do/a ex aí a coisa complica, achar alguém com o mesmo nome é mais difícil. No geral a vida dessas pessoas é uma constante relação de interdependência insalubre, sem contar que se o parceiro/a dela for ‘normal’ seu egoísmo está colocando em risco o bem-estar de alguém. Sobre isso minha opinião é simples: você só está preparado pra ser feliz com alguém quando consegue ser feliz sozinho. Isso é fato.

Há quem diga que fomos feitos pra encontrar o parceiro ideal, e que, por mais feliz que você seja enquanto só, a sua natureza sempre te empurra pra cima de alguém. Muita gente não entende esse impulso – ou finge não entender – e transforma o alguém em ‘alguéns’. Sujeito esperto esse, nunca está só, mas também nunca está com ninguém. Praticamente um hacker bugando as leis da natureza. Mas não se engane, ele também, mais cedo ou mais tarde, vai se deparar com um Macintosh. Por mais racional que você seja, que tenha tomado na cabeça mil vezes, aprendido a lição, por mais que cachorro mordido por cobra tenha medo de linguiça, não se iluda, tem sempre alguém a espreita, com a chave Philips do tamanho certo pra desafrouxar seu parafuso e colocar sua guarda mais baixa que sinal da TIM.

Sendo sincero, ficar só deve ser mais seguro, por mais contraditório que possa parecer. Se você considerar que entrar num relacionamento é um jogo de tentativa e erro, não tentar, teoricamente, é não errar, ainda mais numa época em que as coisas acontecem tão rápido, onde tanta gente insiste em chamar de destino as consequências de suas próprias escolhas. Por outro lado, há quem prefira dar uma banana à segurança e correr os riscos, acreditando que se o passo for maior que a perna um pulo vai resolver. O legal é que as duas turmas adoram debater o tema, nunca levando em consideração que, não importa a ordem cronológica, invariavelmente todos já viraram a casaca pelo menos uma vez. Não existe solteiro intransigente que não tenha chorado na lama nem romântico inveterado que não tenha sido solteiro. Há de se respeitar os dois extremos, afinal de contas não há nada mais doído que um coração pisado nem nada mais pueril que uma doce alma atrás da sua cara-metade, mas se é pra apostar no sucesso de alguém prefiro jogar minhas fichas num coração quebrado e bem reconstruído ou numa alma otimista, mas que sabe que o sonho do par perfeito é na verdade uma aceitação de defeitos mútua que vale muito a pena.

Sim, eu acredito em casais, no casar, ter filhos, viver junto pra sempre e tudo aquilo que o ator do filme, no começo, rechaçava, mas também acredito na teoria do ‘7 é bom’, é inteligente, realista e saudavelmente pragmática. Uma coisa aumenta as chances de ser feliz, a outra diminui as de ficar triste. Se arrepender do que fez ou do que não fez. O certo é que todo passeio de barco está sujeito a pegar uma onda grande pela proa, e se você vai virar e afundar ou aproveitar o impulso pra ir mais longe é você quem vai decidir. E no final das contas, depois da tempestade ou no meio da calmaria, é sempre bom pensar que o pior já passou.