terça-feira, 8 de março de 2011

Layla e a dor de cotovelo


Layla consegue transformar qualquer letra que já escrevi em uma mera confissão adolescente. Eric amava Patty, a mulher de seu melhor amigo George, e em quinze simples e diretas linhas fez uma declaração de amor que de tão honesta mais parece o reflexo da própria alma do autor. Eric Clapton terminou por conquistar Patty Boyd, e pra ela, em um momento de felicidade, anos depois, escreveu Wonderful Tonight, a mais linda declaração de que tenho notícia. Mas Layla é uma excessão...

A música tem o poder de conquistar, mas o mais engraçado e irônico disso tudo é que pelo menos 90% das ditas canções de amor foram e são escritas no pior momento da dor, na fossa, no fundo do poço, na merda. As pessoas se identificam com elas, os compositores vão muito possivelmente se dar bem com várias outras mulheres (que os acham os caras mais sensíveis do mundo), mas as musas, as homenageadas – na verdade as grandes f*&$%#@ que ferraram com tudo, é obvio -, essas já eram. Não que o McCartney da vez não queira, mas depois que o caldo entorna não vai ser rimando amor com dor que a moça, a essa altura na terceira depois de estar em outra, vai voltar correndo pros braços do roqueiro chorão.

Do ponto de vista do compositor, o engraçado e irônico tem outro tom e acontece quando, tempos depois, você passa por uma situação idêntica a que você mesmo descreveu no passado. Já aconteceu comigo – o que sugere uma revisão de conceitos.

Mas o álibi perfeito são os 10% restantes. Sempre existe a inspiração sem explicação, a música que pede aquelas palavras sem nexo que você tinha na cabeça há 12 anos ou, no meu caso, o dom da composição compulsiva. Mesmo feliz da vida você escreve aquela letra que mais parece uma ode à quarta-feira de cinzas - ou esperando a mulher se arrumar pra uma festa, horas atrasada (como de costume), vem a letra perfeita.

A conclusão final é: toda dor de corno é igual, e se você acha que já f**** com a vida de algum músico mas nunca ganhou uma música, sinto desapontá-la, você não foi tão importante assim...

Layla:

http://www.youtube.com/watch?v=xV3M83A4aiI&feature=related