segunda-feira, 2 de abril de 2012

A dúvida que move a humanidade, de verdade


Lembro de assistir uma dessas comédias românticas, bem inofensivas, cheia de clichês pegajosos, e ouvir o personagem principal masculino, atormentado pela ex-namorada paranoica, recém-promovido à solteirice convicta dizer ‘pra que largar meu 7 seguro de todo dia por um 10 hipotético que invariavelmente vai virar um zero a esquerda?’. Boa pergunta essa. A calmaria do velejar solitário ou a montanha-russa do relacionamento a dois? O que é melhor, se contentar com a felicidade simplória e espartana que é manter-se de coração fechado ou comprar o bilhete na esperança de encontrar o suprassumo da felicidade em dupla, correndo o risco de encarar o mais que provável ‘giving with the donkeys in the water’, numa tradução literal para o nosso português, ‘dando com os burros n’água’? Digo provável porque, aceitem os românticos ou não, 95% dos relacionamentos estão fadados ao fracasso.

A pergunta é complexa em sua essência, a começar pelo fato de que muitas pessoas associam o ser feliz a estar com alguém. Pra gente assim a vida parece simples - se tiver feito uma tatuagem com o nome do/a ex aí a coisa complica, achar alguém com o mesmo nome é mais difícil. No geral a vida dessas pessoas é uma constante relação de interdependência insalubre, sem contar que se o parceiro/a dela for ‘normal’ seu egoísmo está colocando em risco o bem-estar de alguém. Sobre isso minha opinião é simples: você só está preparado pra ser feliz com alguém quando consegue ser feliz sozinho. Isso é fato.

Há quem diga que fomos feitos pra encontrar o parceiro ideal, e que, por mais feliz que você seja enquanto só, a sua natureza sempre te empurra pra cima de alguém. Muita gente não entende esse impulso – ou finge não entender – e transforma o alguém em ‘alguéns’. Sujeito esperto esse, nunca está só, mas também nunca está com ninguém. Praticamente um hacker bugando as leis da natureza. Mas não se engane, ele também, mais cedo ou mais tarde, vai se deparar com um Macintosh. Por mais racional que você seja, que tenha tomado na cabeça mil vezes, aprendido a lição, por mais que cachorro mordido por cobra tenha medo de linguiça, não se iluda, tem sempre alguém a espreita, com a chave Philips do tamanho certo pra desafrouxar seu parafuso e colocar sua guarda mais baixa que sinal da TIM.

Sendo sincero, ficar só deve ser mais seguro, por mais contraditório que possa parecer. Se você considerar que entrar num relacionamento é um jogo de tentativa e erro, não tentar, teoricamente, é não errar, ainda mais numa época em que as coisas acontecem tão rápido, onde tanta gente insiste em chamar de destino as consequências de suas próprias escolhas. Por outro lado, há quem prefira dar uma banana à segurança e correr os riscos, acreditando que se o passo for maior que a perna um pulo vai resolver. O legal é que as duas turmas adoram debater o tema, nunca levando em consideração que, não importa a ordem cronológica, invariavelmente todos já viraram a casaca pelo menos uma vez. Não existe solteiro intransigente que não tenha chorado na lama nem romântico inveterado que não tenha sido solteiro. Há de se respeitar os dois extremos, afinal de contas não há nada mais doído que um coração pisado nem nada mais pueril que uma doce alma atrás da sua cara-metade, mas se é pra apostar no sucesso de alguém prefiro jogar minhas fichas num coração quebrado e bem reconstruído ou numa alma otimista, mas que sabe que o sonho do par perfeito é na verdade uma aceitação de defeitos mútua que vale muito a pena.

Sim, eu acredito em casais, no casar, ter filhos, viver junto pra sempre e tudo aquilo que o ator do filme, no começo, rechaçava, mas também acredito na teoria do ‘7 é bom’, é inteligente, realista e saudavelmente pragmática. Uma coisa aumenta as chances de ser feliz, a outra diminui as de ficar triste. Se arrepender do que fez ou do que não fez. O certo é que todo passeio de barco está sujeito a pegar uma onda grande pela proa, e se você vai virar e afundar ou aproveitar o impulso pra ir mais longe é você quem vai decidir. E no final das contas, depois da tempestade ou no meio da calmaria, é sempre bom pensar que o pior já passou.