sexta-feira, 6 de julho de 2012

A poupança Bamerindus

‘O tempo passa, o tempo voa, e a poupança Bamerindus continua numa boa...’. Quem viveu os anos 1990 lembra bem dessa musiquinha pegajosa que era veiculada pelo banco até sua extinção, lá pelos idos de 1997. Pois é, o tempo passou, o tempo voou, e a poupança Bamerindus não está mais numa boa. Isso serve como exemplo de que nada na vida é eterno, muito menos o jackpot mais perseguido de - e por - todos, a tal felicidade.

Ser feliz, pra mim, é acordar descansado, tomar um banho quente e um bom café da manhã, ir trabalhar sem pegar trânsito, almoçar com pessoas que te abduzem do stress do escritório, ter um dia de trabalho produtivo, voltar pra casa sem pegar trânsito, malhar (tênis, academia, natação, corrida... tanto faz), outro banho quente, um jantar leve, estudar um pouco (ou muito, se for semana de prova), esporte na TV, ar-condicionado ligado e, last but not least, uma boa noite de sono, pra começar tudo de novo amanhã. Se for final de semana melhor ainda, acordar tarde, pegar uma praia com os amigos, almoçar sem hora, soneca, pré-night, se for o caso, e o resto é história. Viajar sempre é bom também. Tudo muda um pouco se você está com alguém, mas a essência é a mesma, a busca pelo equilíbrio.

Esse exemplo foi meu, é o que EU gosto, o que eu considero prazeroso e satisfatório. Tem gente que curte vagabundear o dia todo, outros adoram passar o fim de semana entornando todas, alguns até acham legal perder o domingo vendo o Faustão ou fazendo rapel, cada um na sua. Meu ponto aqui é: ninguém vive a felicidade 24/7, 365 dias por ano. O que descrevi não é felicidade, é equilíbrio, emocional e físico. E aí me perguntam, felicidade existe? Claro! Mas é efêmera, temporal, passageira. O máximo que podemos fazer é potencializar a frequência com que essas ondas de felicidade nos visitam. Como? Seguindo o roteiro que descrevi acima (isso no meu caso), lidando de maneira racional e inteligente com os percalços, se afastando de quem te faz mal e se aproximando de quem quer seu bem, sendo educado e prestativo com quem merece (e educado e distante com quem não merece), e, acima de tudo, respeitando as diferenças e os sentimentos de todos.

Quem me vê falando assim pode pensar que sou o Jedi do autocontrole, o Pelé do zen-budismo, o Peter Perfeito mutante com o poder do sambarilove onipresente, mas quem me conhece sabe, eu tento, mas vez ou outra dá merda, e quando a jurupoca pia o Ed equilibrado precisa de tempo pra voltar aos trilhos. É assim com todo mundo, cada um tem seu tempo, suas convicções e sua própria realidade. Realidade, aliás, é a coisa mais subjetiva do universo, cada um tem uma visão diferente de um fato, mas felicidade qualquer um reconhece, do monge mais puro até o bandido mais vil, essa é igual pra todos, só muda o gatilho.

Admito que hoje sou um homem equilibrado, tenho momentos de felicidade todos os dias: um nascer do sol diferente a cada vez que atravesso a ponte indo pro trabalho, o quindim molhado de sobremesa, a piada engraçada que vem no tempo certo, a mensagem legal no whatsapp, o post ou a foto maneira do amigo no Facebook, o conselho cheio de boas intenções do amigo ou da amiga, o colo da família, o carinho de quem você gosta... Óbvio que a porra do motoqueiro que passa buzinando no meu ouvido quando o trânsito tá parado, os juros do banco ou o acéfalo que maltrata um animal ou joga lixo no chão me tiram do sério, mas e daí? Já vivi o suficiente pra saber que a felicidade é algo intermitente, e que seria a contínua tão inalcançável pra todos como é a Katherine Heigl pra mim.

Mas será que um dia, depois de anos de união feliz (no geral!) com a Katherine Heigl, eu acordaria uma manhã, abriria os olhos, olharia pra ela e pensaria em outra? Provavelmente sim, mas a vida me ensinou que isso passa, e que se hoje eu dormir mal e acordar cansado, tomar um banho frio porque a bateria do aquecedor acabou, não tiver pão pro café, tiver que almoçar com o pela-saco mais chato do escritório, brigar com o chefe, pegar um engarrafamento interminável na ponte, não puder jogar tênis porque choveu o dia todo e etc., amanhã a Kathy (sim, já somos íntimos) volta a ser a mulher mais linda do mundo.


Tudo na vida passa, até a poupança Bamerindus. O que vale a pena volta, o que não vale fica pra trás. E assim a gente é mais feliz, pelo menos com mais frequência.